29/03/2018

UE abre investigação e eleva pressão sobre aço brasileiro

Por Assis Moreira | De Genebra

Fonte: Valor Econômico

A União Europeia (UE) avisou ao Brasil e outros exportadores de aço para a
Europa que iniciou esta semana sua investigação de salvaguarda cobrindo
a importação de 26 tipos de produtos de aço. O objetivo de Bruxelas é
poder impor barreira para evitar ser inundado com o aço que não puder
entrar nos Estados Unidos, depois da imposição de sobretaxa de 25%
anunciada por Donald Trump.
O Brasil e os outros produtores têm 21 dias para responder a um
questionário da Comissão Europeia. Ou seja, ao mesmo tempo em que
negocia com os EUA para não ser sobretaxado depois de 1º de maio, o Brasil
terá que se esforçar para também não ter seus produtos siderúrgicos
afetados na UE.
Negociadores em Bruxelas estimam que o alvo da UE é, basicamente, a
China, com seu persistente excesso de capacidade de produção siderúrgica.
Mas a Eurofer, a associação dos produtores de aço da Europa, nota que uma
salvaguarda ampla e rápida na Europa é necessária e independente da
exclusão da UE, juntamente com alguns outros países, como o Brasil, da
sobretaxa imposta por Trump.
A entidade exemplifica com o acordo da Coreia do Sul com os EUA para que
os coreanos também fiquem isentos da sobretaxa: a Coreia vai limitar suas
exportações a 2,7 milhões de toneladas de aço, ou 70% do volume
exportado entre 2015-2017. Assim, os 30% restantes, que não mais
entrarão nos EUA, vão procurar outros mercados, como a atrativa Europa.
O principal negociador comercial dos EUA, Robert Lighthizer, procura
negociar "restrição voluntária às exportações", um instrumento que ele
usou nos anos 80 como vice-chefe do USTR e que era agora considerado
inadequado no sistema comercial multilateral em vigor. A Casa Branca
ressuscita esse mecanismo e afeta ainda mais as regras da Organização
Mundial do Comércio (OMC).
Para certos observadores, o Brasil terá, nas negociações com Washington,
tanto exportações submetidas a cotas (limite quantitativo) como será
pressionado a fazer alguma concessão para exportações americanas.
Porém, no caso brasileiro, o que pode contar a favor do país, tanto nos EUA
como na Europa, é que boa parte das exportações é de aço semiacabado,
essencial para muitas siderúrgicas dos dois parceiros.
Em 2017, de 2,293 milhões de toneladas exportadas para a UE, 61% foram
de aço semiacabado. As siderúrgicas europeias, a exemplo de americanas,
já indicaram à Eurofer que esse tipo de aço deveria ser excluído de eventual
medida restritiva adotada por Bruxelas.
Conforme a Eurofer, nos dois primeiros meses do ano as importações de
aço acabado aumentaram 12% na Europa, alarmando produtores locais. A
entidade estima que, se volumes forem desviados para a Europa, o impacto
sobre o preço do aço no continente "será devastador".
A Comissão Europeia tem em principio nove meses para concluir a
investigação, mas já avisou que, se medidas temporárias forem necessárias,
poderá adotá-las rapidamente.
Por outro lado, Brasília e Bruxelas continuam tentando fechar este ano o
acordo de livre comércio UE-Mercosul. Porta-voz europeu diz que os
negociadores permanecem em contato para explorar como avançar nas
questões que restam e chegar à última etapa de negociações.