23/01/2018

Títulos brasileiros surfam na onda de liquidez internacional

Fonte: Valor Econômico

O Brasil surpreendeu, na semana passada, ao vender US$ 1,5 bilhão em
títulos de 30 anos no mercado internacional, pagando menos do que na
captação anterior, alguns dias depois de ter tido a classificação de risco de
crédito rebaixada pela agência de rating Standard & Poor's (S&P). Os papéis,
originários da reabertura da emissão de bônus global com vencimento em
2047, tiveram uma demanda quatro vezes maior do que a oferta e
prometem 5,6% aos compradores, menos do que os 5,875% de
remuneração garantida quando foram lançados, em junho de 2016. Títulos
do Tesouro brasileiro com o mesmo prazo renderam mais, em 2009,
quando o risco do Brasil estava três notas acima e era considerado grau de
investimento.
Teria a S&P se precipitado ao rebaixar o Brasil? Ou os investidores não estão
mais se importando com a avaliação das agências de rating? Essas
afirmações são parte da explicação para o aparente paradoxo. É verdade
que as agências de avaliação de risco de crédito ainda não recuperaram
totalmente a credibilidade depois de terem falhado ao não identificar
problemas em instituições financeiras e emissores de títulos e não terem
sinalizado com antecedência a crise financeira de 2007/2008. Até em
resposta a isso, se tornaram mais rígidas.
A Standard & Poor's foi a primeira agência internacional de risco a conceder
grau de investimento ao Brasil, em 2007; e também foi a primeira retirar o
selo de bom pagador em 2015, em consequência dos retrocessos da política
econômica no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Agora, rebaixa
mais uma vez o país para a nota BB-, e não deixa de ter razão ao explicar
que o governo de Michel Temer não conteve a deterioração fiscal, apesar
de ter promovido vários avanços nas agendas micro e macroeconômica e
na política monetária, e ter levado a inflação abaixo do piso da meta e
reduzido os juros para patamar histórico. A agência considera improvável a
aprovação da reforma da Previdência neste ano e negativa a ameaça de se
mudar a "regra de ouro", que limita o endividamento.
No entanto, o mercado financeiro aparentemente já dá como certa a
postergação do ajuste fiscal e, para efeito de compra de títulos globais, mira
mais as reservas internacionais e as contas externas, pontos fortes do Brasil,
que conta com cerca de US$ 380 bilhões acumulados e resultado
equilibrado diante das exportações e investimentos estrangeiros. Sinal
disso é a cotação do "credit default swap" (CDS) do país, equivalente a um
seguro de crédito, que reflete o risco atribuído pelo mercado. O CDS
brasileiro tem girado ao redor de 150 pontos e pouco mudou após o
rebaixamento da nota brasileira. A taxa está até abaixo dos cerca de 170
pontos atribuídos a outros países com a mesma nota (Valor 19/1) e do pico
recente ligeiramente abaixo de 250 pontos, atingindo quando foi divulgada
a gravação da conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário
Joesley Batista.
Para alguns especialistas, o descolamento entre a avaliação das agências e
o risco-país medido pelo CDS é mais consequência do excesso de liquidez,
que tem impulsionado o mercado de capitais e aberto espaço para a
colocação de títulos. Em pouco mais de 15 dias, empresas brasileiras entre
as quais desde velhas conhecidas como a Petrobras até verdadeiras novatas
captaram cerca de US$ 3 bilhões com a venda de bônus no mercado
internacional.
O clima positivo também é derivado das previsões de crescimento da
economia, que fortalecerem o fluxo de capital externo para os mercados
emergentes. Relatório recente do Banco Mundial aponta para expansão
global de 3,1% neste ano, sendo 4,5% entre os emergentes, ligeiramente
acima dos 3% e 4,3%, respectivamente, de 2017. Os países asiáticos seguem
como locomotiva do movimento, que contagia os demais pela recuperação
dos preços das commodities e desenvolvimento do comércio. Há alguns
pontos de interrogação no horizonte como as mudanças demográficas e a
redução da produtividade, alertou recentemente o jornalista Martin Wolf,
no Financial Times. A sustentabilidade do crescimento e do otimismo do
mercado certamente serão temas do Fórum Econômico Mundial, esta
semana em Davos, Suíça.
Como a Standard & Poor's comentou, o crescimento da economia
brasileira, embora animador ainda é baixo e lento para as necessidades do
país.