02/05/2018

Testamento deve ser validado pela Justiça brasileira se inclui bens no país

Por Jomar Martins

Fonte: Consultor Jurídico

Compete à Justiça brasileira validar testamento particular e a partilha de
bens situados no Brasil mesmo que o autor seja estrangeiro ou more em
outro país.
Com base nesse entendimento do artigo 23, inciso II, do Código de Processo
Civil, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul desconstituiu sentença que
não permitia o processamento de um pedido de confirmação
de testamento particular na justiça brasileira. O litígio envolve a sucessão
de bens deixados por um cidadão chinês, morto em Hong Kong em 2014,
pai da autora da ação.
O juízo de primeiro grau entendeu que deveria ser aplicado ao caso o
princípio da lex loci actus, consubstanciado na essência do artigo 9º da Lei
de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Decreto-Lei 4.657/42). Ou
seja, como o testamento foi feito no exterior, deve ser observada a lei do
país em que foi constituído — no caso, a China. Com isso, a 2ª Vara de
Sucessões da Comarca de Porto Alegre extinguiu o processo.
‘‘O próprio autor da disposição de última vontade refere o desejo de que
seu testamento tenha efeito legal de acordo com as leis de Hong Kong.
Somente após realizado o registro de testamento é que será este
confirmado pela autoridade judiciária brasileira e se procederá ao
inventário dos bens aqui situados, nos termos do CPC’’, manifestou-se a
juíza Raquel Alvarez Schuch em sede de Embargos Declaratórios.
Competência exclusiva
O relator da apelação, desembargador Ricardo Moreira Lins Pastl, da
8ª Câmara Cível, discordou da solução jurídica. Para ele, o testamento
particular feito em Hong Kong, local de domicílio do testador,
beneficiando a filha brasileira com os bens imóveis situados no Brasil,
deve ser confirmado perante a autoridade judiciária brasileira, tal como
determina o artigo 23, inciso II, do CPC.
Conforme Pastl, mesmo que o testamento particular tenha sido arquivado
no Registro de Sucessões do Tribunal de Justiça de Hong Kong, não se pode
cogitar de mera homologação de sentença estrangeira. É que o artigo 964
do CPC diz, literalmente: ‘‘Não será homologada a decisão estrangeira na
hipótese de competência exclusiva da autoridade judiciária brasileira’’. E tal
se verifica no caso concreto.
‘‘Concluo que compete à autoridade judiciária brasileira (e com
exclusividade) o processamento do pedido de confirmação do testamento
particular feito por W.C., de modo que a sentença extintiva fustigada deve
ser desconstituída. Anoto, pois oportuno, não ser o caso de, desde logo,
enfrentar o mérito, na forma do art. 1.013, § 3º, do CPC, já que a causa não
está madura’’, anotou no acórdão.
Processo 001/1.16.0145030-4