23/02/2018

Souza Cruz traça plano para o cigarro eletrônico

Por Juliana Schincariol | Do Rio

Fonte: Valor Econômico

Ainda proibidos no Brasil, os cigarros eletrônicos são a alternativa para a
indústria do tabaco voltar a crescer no mundo todo. Líder no segmento, a
British American Tobacco (BAT), dona da Souza Cruz, quer convencer o
governo local a permitir o uso do produto. Segundo o presidente da
unidade brasileira, Liel Miranda, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) já sinalizou que vai analisar o assunto, mas uma perspectiva de um
debate mais concreto deve ficar para 2019.
Operacionalmente, o produto ainda representa uma parte pequena dos
resultados da BAT. Mas a aquisição, no ano passado, da Reynolds American,
americana líder em vaporizadores, resultou em um ganho de 23,29 bilhões
de libras. Além disso, o crédito tributário obtido com a reforma fiscal nos
Estados Unidos contribuiu para o resultado da empresa em 2017. A
companhia divulgou ontem lucro líquido de 37,5 bilhões de libras (US$ 52,4
bilhões) em 2017, oito vezes acima do resultado de 2016.
O portfólio de produtos eletrônicos teve receita de 397 milhões de libras,
ante receita total de 20,2 bilhões de libras. "Como essa é uma tecnologia
mais nova, não conseguimos a mesma rentabilidade [do cigarro tradicional]
porque não tem escala. Mas acreditamos que no longo prazo a escala vai
ser tão grande que vai permitir que tenhamos uma margem tão boa quanto
temos em tabaco hoje", diz Miranda.
Com a nova geração de produtos presente em 17 países, a companhia
pretende chegar a 40 até o fim de 2018. Hoje, a BAT tem dois tipos de
produtos e o uso deles depende da legislação de cada país.
O mais conhecido é um vaporizador, comumente chamado de cigarro
eletrônico. O dispositivo é alimentado por uma bateria e produz um
aerossol gerado por meio de um aquecedor elétrico. Esse aerossol inalado
é resultado do aquecimento de um líquido composto de nicotina,
propilenoglicol e aromatizantes e não contém tabaco. Presente em 11
países, é comercializado sob a marca Vype na Europa, e Vuse, nos Estados
Unidos. O outro é um produto de tabaco aquecido, conhecido como THP
(Tabacco Heating Product). A empresa desenvolveu um pequeno
dispositivo onde se coloca um cigarro especial. É possível tragar mas sem
realizar combustão, com a promessa de redução de riscos associados ao
uso. Chamado de Glo, é vendido no Japão, Coreia do Sul, Suíça, Canadá,
Romênia e Rússia.
Entre as conversas que mantém com a Anvisa, a BAT já apresentou estudos
que afirma comprovar a redução dos riscos do cigarro eletrônico em relação
ao produto tradicional. Isso ocorre porque na nova geração dos produtos
não há a combustão do tabaco, afirma Chris Proctor, diretor científico da
BAT. "Em um cigarro eletrônico, a única coisa que é próxima ao cigarro
tradicional é a nicotina e nada mais. A nicotina é extraída do tabaco e
purificada. Então você adiciona glicerina e outros produtos e sabores",
explica.
Assim, na visão da BAT, a permissão e regulação do produto teria um
impacto "gigantesco" para a saúde pública, já que as pessoas vão passar a
consumir um produto de menor risco. No Brasil, trata-se de uma questão
de tempo, acredita Miranda. "É impossível o governo tomar a decisão de
cercear o consumidor brasileiro de um produto que tem demanda", afirma.
O presidente da Souza Cruz defende que seja feito debate público com a
indústria, autoridades sanitárias e governo para definir as características de
produto, publicidade e imposto. "O que gostaríamos é que nos próximos
dois anos esse debate e essa liberação acontecesse", afirma. Mas na visão
do executivo, devem ganhar força a partir de 2019, principalmente por
causa do ano eleitoral.
Apesar de proibida, há sites no Brasil que já vendem os cigarros eletrônicos.
"Esse é um grande risco do governo brasileiro não liberar. No médio prazo,
o consumidor vai conhecer cada vez mais essa oferta e vai começar a
aparecer contrabando no Brasil também de cigarro eletrônico", diz
Miranda.
No Brasil, a Souza Cruz teve, nos últimos anos, queda de volume,
faturamento e lucro "enormes" pela combinação da recessão, aumento da
carga tributária e crescimento do contrabando, que era de 30% do volume
total do mercado brasileiro, chegando a 48%. Em 2016, a empresa fechou
a fábrica em Cachoeirinha (RS). À frente da empresa desde abril do ano
passado, Miranda diz que seu mandato já vem sendo marcado pela saída
da recessão. "Em 2017, parou de piorar para nós. Já começamos a perceber
que a queda de volume diminuiu e o faturamento começa a demonstrar
que não cai tanto quanto caía antes. O maior problema é o contrabando no
Paraguai", afirma.
A crescente violência no Rio de Janeiro com o aumento ao roubo de cargas
foi uma "crise gigantesca" para a Souza Cruz. "Foi um aumento
desproporcional de ataques, assaltos e inclusive fatalidades com a nossa
equipe", diz, citando a morte de sete seguranças desde o ano passado após
assaltos.
Os representantes da empresa não vão mais para determinadas regiões - e
passaram a vender para atacadistas. Em outras áreas, as visitas não têm
uma agenda fixa. "Aumentou o nosso custo de segurança em 30% no Rio e
a perda com roubos triplicou. Perdemos R$ 20 milhões só em 2017". O Rio
representa 20% das vendas no Brasil.