29/01/2018

Situação financeira das empresas melhora, diz estudo

Por Victor Aguiar | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

A melhora nos resultados das empresas brasileiras no terceiro trimestre de
2017 foi influenciada, em grande parte, pela dinâmica mais favorável em
relação às despesas financeiras, de acordo com levantamento do Centro de
Estudos do Mercado de Capitais - Fipe (Cemec-Fipe). No entanto, a pesquisa
também aponta que, do ponto de vista de geração de caixa, as companhias
abertas ainda não deram sinais expressivos de recuperação.
Considerando uma amostra com 255 empresas de capital aberto, o estudo
acompanhou a evolução de alguns indicadores financeiros, de forma
consolidada, desde 2010. A base de dados vai até o terceiro trimestre de
2017 - os resultados de outubro a dezembro começam a ser divulgados
hoje.
O levantamento mostra que, nos 12 meses encerrados no terceiro trimestre
do ano passado, o resultado antes de juros, impostos, depreciação e
amortização (Ebitda, na sigla em inglês, usado como indicador de geração
de caixa) chegou a R$ 243,04 bilhões, considerando todas as empresas da
amostra.
O resultado é 10,1% superior ao trimestre anterior, mas praticamente
estável ante o primeiro trimestre (R$ 241,29 bilhões) e o fim de 2016 (R$
242,84 bilhões).
"Não há sinais de recuperação [na geração de caixa] por causa de um
aumento nas vendas", diz o diretor do Cemec-Fipe, Carlos Antonio Rocca.
"O processo de recuperação, até o terceiro trimestre, é discreto,
moderado."
Comportamento semelhante pode ser observado na dinâmica da dívida
bruta das empresas. O indicador, que se manteve em queda entre 2015 e a
metade de 2017, subiu para R$ 1,245 trilhão ao fim do terceiro trimestre
do ano passado, alta de 6,4% na base trimestral.
Para Rocca, o ambiente internacional favorável pode ter estimulado as
companhias a se endividarem em condições mais favoráveis. Além disso, o
diretor do Cemec-Fipe analisa que muitas operações de financiamento
podem ter sido antecipadas, dado o possível crescimento na instabilidade
econômica com a proximidade das eleições. "O aumento foi pequeno, a
observação principal é que não tivemos a continuidade de queda na dívida
bruta."
Se os indicadores de geração de caixa ainda não mostram claramente a
recuperação das empresas, os números relacionados ao endividamento
financeiro dão indícios mais claros de melhora. É o caso do índice de
cobertura das despesas financeiras, que saltou de 1,57 vez no segundo
trimestre de 2017 para 2,25 vezes no terceiro trimestre, maior patamar
desde 2011.
Para Rocca, a evolução no indicador se deve à redução nas despesas
financeiras, uma vez que o Ebitda se manteve praticamente estável. Ele
explica que a queda no câmbio e na taxa de juros foi fundamental para essa
diminuição, uma vez que grande parte desse saldo está indexado ao CDI ou
denominado em moeda estrangeira.
Além disso, o levantamento mostra que, no terceiro trimestre, 35% das
empresas de capital aberto apresentavam despesas financeiras maiores
que o Ebitda, patamar semelhante ao de 2014 - no trimestre anterior, o
indicador estava em 45,5%. Por outro lado, ao segmentar as empresas da
amostra por porte, o estudo revela uma grande disparidade no índice de
cobertura. Entre as companhias grandes - com receita operacional bruta
superior a R$ 300 milhões -, cerca de 25% apresenta despesas financeiras
maiores que a geração de caixa. Já no grupo das pequenas, com receita
operacional bruta inferior a R$ 90 milhões, o indicador salta para 75%.
"Empresas de grande porte costumam ter uma fatia maior do mercado de
capitais e têm acesso a empréstimos externos", diz Rocca, ressaltando que
os custos e condições dos financiamentos para esses grupos melhoraram
ou permaneceram favoráveis, acompanhando a taxa de juros. "As
companhias menores usam mais crédito bancário, e essas taxas têm
respondido com menos intensidade que a queda do CDI."