21/03/2018

Recuperação judicial é oportunidade para Eternit se reinventar

Por Chiara Quintão | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Conhecida pelas telhas de amianto e pela extração do mineral crisotila, a
Eternit precisou recorrer à recuperação judicial para fazer frente ao
descasamento do caixa com seus passivos. O comunicado ao mercado
informando o pedido de recuperação foi feito na noite de segunda-feira. A
decisão suscitou uma velha questão: se a empresa de 78 anos não demorou
para se diversificar e ficar menos dependente do amianto. Na verdade, esse
processo já estava em andamento, principalmente após a troca do
presidente em abril do ano passado, mas o cerco maior ao uso do amianto
e a crise da construção civil acabaram resultando no pedido. Pesaram
também os resultados da Companhia Sulamericana de Cerâmica (CSC), joint
venture de louças sanitárias na qual a Eternit tem 60%.
Ontem, as ações da Eternit caíram 7,07%, cotadas a R$ 0,92. A companhia
não tem controlador, e os três maiores acionistas - Luiz Barsi Filho, Victor
Adler e controladas e Geração L. Par Fundo de Investimento em Ações -
têm, em conjunto, 33,77% de participação.
Segundo fonte, a recuperação judicial foi a forma encontrada pela Eternit
para proteger seu caixa - que era de R$ 26,7 milhões em 30 de setembro -
do risco de ser bloqueado pela Justiça para assegurar a indenização de ação
civil pública referente à mina de São Felix (BA), da Sama, mineradora do
grupo responsável pela exploração da crisotila. "Não vemos esse risco
assim", diz Luís Augusto Barbosa, presidente.
Em agosto, a Eternit foi condenada, em primeira instância, a pagar multa
de R$ 500 milhões por danos morais coletivos nessa ação. A companhia está
recorrendo. Segundo o executivo, a ação não caracteriza um crédito para a
recuperação, e a sentença bloqueou apenas o ativo não circulante.
A Eternit tem expectativa de sair da recuperação judicial em dois anos.
Segundo a companhia, seu Ebitda é insuficiente para pagar a dívida
financeira, acima de R$ 300 milhões. Barbosa explica que esse valor
abrange a dívida da Eternit, a totalidade dos débitos da CSC (os resultados
da joint venture entram no balanço como equivalência patrimonial) e
crédito de fornecedores. "Só temos um forno na CSC e não estamos
operando à plena capacidade. Estamos sujeitos às oscilações de mercado",
diz Barbosa.
Discussões judiciais sobre extração, industrialização, uso e venda do
amianto crisotila transcorrem há muitos anos. Questionado, Barbosa disse
que talvez a empresa deveria ter se diversificado mais, mas ressalta que a
companhia ampliou suas áreas de atuação. "Temos a joint venture de
louças e investimos quase R$ 100 milhões na fábrica de Manaus [que
produz telhas de polipropileno]."
Antes do início da crise da Eternit, analistas e investidores comentavam que
chamava a atenção a companhia ser grande distribuidora de dividendos,
mas não apostar na diversificação de produtos para depender menos do
amianto. Barbosa preferiu não comentar as estratégias adotadas pelas
gestões anteriores.
Desde que assumiu a Eternit, o executivo deu início à sua reestruturação.
Quase toda a diretoria foi substituída, e os gerentes comerciais foram
trocados. As mudanças foram necessárias, segundo ele, pois a atuação
estava muito vinculada ao funcionamento da companhia no período que
antecedeu a crise iniciada há quatro anos. Em 2017, a companhia reduziu
seu efetivo entre 30% e 35%, o que gerou custos.
"Nós nos preparamos para anos muito melhores em 2018 e 2019. Já temos
os primeiros sinais de recuperação da economia", afirma o executivo.
Sama responde por cerca de 20% do faturamento da Eternit, que quase já
não produz mais telhas de amianto
No fim de novembro, a Eternit informou ao Valor que suspenderia, até o
fim de 2018, o uso do amianto na fabricação de qualquer produto,
substituindo a matéria-prima por polipropileno. Na ocasião, Barbosa disse
que a companhia continuaria a explorar, por meio da controlada Sama, fibra
de amianto para exportação a países que permitem o uso da matéria-prima.
A Sama responde por cerca de 20% do faturamento da Eternit. A
companhia, praticamente, não produz mais telhas de amianto, segundo seu
presidente.
Ainda em novembro, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional
dispositivo da Lei Federal nº 9.055, de 1995, que permite a extração,
industrialização, comercialização e distribuição do amianto crisotila no país.
Com o efeito suspensivo da decisão, porém, a produção da Sama
prosseguiu normalmente, de acordo com Barbosa. Mas o risco de proibição
afeta a companhia, que já tinha de lidar com queda de demanda interna e
com a redução dos preços internacionais em decorrência do banimento do
amianto em alguns países.
"A atividade da Sama foi reduzida drasticamente", disse Barbosa ao Valor.
O pedido de recuperação da Eternit abrange a companhia, a Sama
Minerações Associadas, a Tégula Soluções para Telhados, a Eternit da
Amazônia Indústria de Fibrocimento, a Precon Goiás Industrial, a Prel
Empreendimentos e a CSC. A Eternit optou pelo formato de litoconsórcio
ativo-unitário, com soluções idênticas para todas as requerentes. "As
dívidas estão distribuídas nas empresas. A recuperação de apenas uma
poderia impactar os 'covenants' [compromissos assumidos com credores]
das demais", diz Barbosa.
No documento apresentado pelo escritório Galdino Coelho Mendes, que
representa a Eternit, consta que, apesar de o grupo ser formado por
empresas distintas, há única atividade integrada e grupo econômico
indissociável. Por essa razão, "o passivo de umas impacta diretamente o
passivo de outras". (Colaborou Ivo Ribeiro)