02/10/2018

Queiroz Galvão faz nova tentativa de renegociar dívida

Por Silvia Rosa e Talita Moreira | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Os bancos aumentaram a pressão sobre o grupo Queiroz Galvão numa
renegociação de R$ 10 bilhões em dívidas que já se arrasta há um ano e
meio. Enquanto isso, a controlada Queiroz Galvão Oléo e Gás (QGOG)
Constellation mantém conversas com detentores de bônus e tenta adiar
obrigações de curto prazo.
Se não chegar a um acordo com os credores, o grupo - envolvido na
Operação Lava-Jato - caminha para recuperação judicial.
Depois de um ultimato dos bancos, está em discussão uma proposta para o
grupo pagar 10% da dívida à vista e pelo menos metade em oito anos. Se a
empresa cumprir os compromissos, a ideia é que os credores deem um
prazo adicional para o acerto do valor restante, o que elevaria para até 18
anos a duração total da reestruturação.
O que está sendo avaliado, agora, são as garantias que o grupo terá de
oferecer às instituições financeiras. Um dos ativos exigidos pelos bancos
são as ações ou o acesso ao fluxo de caixa da Queiroz Galvão Exploração e
Produção (QGEP), apurou o Valor. Uma das possibilidades é que a empresa
venda operações do segmento de óleo e gás para pagar a primeira parcela
do refinanciamento.
As instituições também têm exigido mais garantias e querem que a Queiroz
Galvão se desfaça de ativos. Um dos ativos que a empresa tenta vender é a
participação no Estaleiro Atlântico Sul- EAS (PE), que detém junto com a
Camargo Correa.
Na semana passada, as conversas entre o grupo e os bancos chegaram a um
impasse. A Queiroz propunha um acordo com carência de principal e juros
por seis anos e prazo total de pagamento de 18 anos. Os credores
rejeitaram o acordo e interromperam as conversas. O Itaú Unibanco chegou
a notificar a empresa de que irá executar as dívidas caso se não houver
acordo. O banco segue Santander e BTG Pactual, que já fizeram o mesmo.
As notificações dão à companhia um mês para alcançar um entendimento.
O BNDES é o maior credor e pediu para entrar com o conjunto de bancos
no compartilhamento das garantias. Bradesco, Banco Votorantim, Banco do
Brasil, Santander e ING também fizeram empréstimos a empresas da
Queiroz Galvão.
A complexidade do acordo decorre do fato de que o grupo tem diversas
empresas, com credores diferentes em cada uma.
O Santander já vendeu a sua parte na dívida de R$ 2 bilhões no segmento
de energias renováveis do grupo para o fundo Castlelake. O banco
espanhol, no entanto, detinha outros créditos com os grupo e pediu a
execução da dívida.
O Votorantim entrou com processo na Justiça para cobrar antecipadamente
dívida de R$ 400 milhões com a Queiroz Galvão Desenvolvimento de
Negócios. Segundo fontes, a instituição estaria disposta a retirar a ação se
a reestruturação for aprovada.
Em outra frente, a QGOG Constellation discute com os credores a extensão
dos pagamentos que estão vencendo no curto prazo enquanto não chega a
uma solução para a reestruturação da dívida.
A empresa renegociou na semana passada a extensão, para 31 de outubro,
de uma linha de financiamento a projetos de US$ 146 milhões relativa ao
navio-sonda Amaralina Star. Também estendeu para a mesma data uma
linha de capital de giro com o Bradesco, de US$ 150 milhões.
Neste ano, a companhia pagou com atraso, depois do prazo de carência, os
juros dos bônus para 2019 e 2024, que tiveram o rating rebaixado pela Fitch
para 'RD', que indica 'default'. Em junho, o total das emissões no mercado
era de US$ 96 milhões e US$ 595 milhões, respectivamente. Os detentores
dos bônus discutem com os bancos a melhora da estrutura de garantia dos
papéis para aceitar a extensão do prazo. Os credores também exigem
aporte do acionista.
No relatório de junho, a Fitch destacou a dificuldade da empresa
recontratar suas plataformas de perfuração, cujo contrato com a Petrobras
expira em 2018.
Em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a QGEP
Participações afirmou que a sua controladora Queiroz Galvão SA encontrase
em tratativas de renegociação de dívidas com os principais credores
financeiros, mas que não há nenhum documento vinculante até o presente
momento e nem pedido de recuperação judicial em andamento. A QGEP
Participações esclarece que não faz parte do grupo de empresas em
reestruturação financeira e, caso seja notificada acerca das garantias, fará
as divulgações cabíveis.
Procurados, a Queiroz Galvão, Itaú Unibanco, Santander e Bradesco não
comentaram o assunto. O Votorantim afirmou que não se manifesta sobre
processos judiciais em segredo de Justiça.