19/04/2018

Inflação nos EUA voltará a preocupar, diz Macquarie

Por José de Castro | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Os recordes de Wall Street ficaram para trás, o dólar quebrará a tendência
de queda, e os "yields" dos Treasuries de dez anos subirão para 3,25% em
meados do ano, contra os atuais 2,83%. Esse é o cenário traçado por Thierry
Wizman, estrategista de câmbio e juros do Macquarie, maior banco de
investimentos da Austrália e com 460 bilhões de dólares australianos (US$
357 bilhões) na área de gestão de recursos.
Para ele, após alguma trégua nos últimos meses, a inflação nos EUA tornará
a dar dor de cabeça ao mercado, já que os preços alcançarão um pico nos
próximos meses e levarão o Fed a subir mais os juros.
No Brasil, Wizman acredita que o dólar pode alcançar R$ 3,65 a depender
dos desdobramentos políticos, o que terá desdobramentos sobre o IPCA.
Por isso, o profissional entende que o Banco Central errou ao sinalizar mais
afrouxamento monetário. Para ele, o movimento do câmbio é o mais
"válido" diante do atual contexto. A bolsa estaria excessivamente
dependente da história dos juros baixos, enquanto investidores parecem
ignorar o fato de que em algum momento os juros precisarão ser elevados.
Leia a seguir trechos da entrevista:
Valor: As ações globais já caem 5,8% desde os recordes históricos atingidos,
mas as estimativas para a economia internacional seguem firmes. Quais
componentes dessa equação está errada?
Thierry Wizman: As previsões estão erradas. Mesmo nos EUA, onde temos
mais confiança no médio prazo, alguns dados de consumo têm vindo mais
fracos. Mas é a Europa que preocupa mais. Nos últimos meses as sondagens
por lá indicam fraqueza na economia industrial, o que desperta mais
receios. De qualquer forma, em todo o mundo os dados do primeiro
trimestre de 2018 sugerem que o crescimento desacelerou em relação aos
três meses finais de 2017. Acredito que há outro ponto que está tirando a
atenção do mercado: a redução do comércio global. Mas é preciso ponderar
que o comércio tem esfriado há pelo menos uma década. Então, não vejo
motivo para preocupação agora. O que me parece mais claro é que no fim
de 2017 a história era sobre o crescimento sincronizado. Agora, os
investidores parecem mais preocupados com o comércio. Porém, não
acredito que o mundo entrará numa guerra comercial. E, nesse contexto,
um risco que perdeu espaço mais recentemente, vejo como mais real: a
inflação americana.
Valor: Por quê? A inflação americana vai subir ainda mais?
Wizman: Tudo indica que sim. Os custos trabalhistas estão se elevando, os
preços de produtos agrícolas nos EUA também. E vamos ver mais inflação
em meados de 2018 também por uma questão estatística, já que alguns
fatores extraordinários que seguraram os preços no mesmo período do ano
passado não estão mais presentes. Dependendo de algumas medidas
podemos ver a inflação acumular alta anual de 3%. E isso terá impacto nos
"yields" dos Treasuries. Vejo a taxa de dez anos chegando a 3,25% no verão
americano (hoje está em torno de 2,83%).
Valor: Isso vai levar o Fed a ser mais agressivo na normalização das
condições monetárias?
Wizman: Acho que seria mais sábio que, diante desse cenário, o Fed subisse
os juros em duas reuniões seguidas agora no meio do ano, em vez de
espaçar as altas. Isso marcaria uma mudança ante os anos anteriores e
ajudaria o mercado a perceber a liderança de Jerome Powell. Não há
porque seguir o mesmo modo que o praticado nos anos do pós-crise. Não
estamos mais em crise. As condições financeiras são fortes. O hiato do
produto é pequeno. Se o Fed subir os juros dessa forma, isso poderá se
tornar uma fonte de preocupação para os mercados. Mas, por outro lado,
evitaria altas de juros em 2019, como alguns analistas acreditam.
"Banco Central tem cortado os juros de forma excessivamente agressiva e
para patamares demasiadamente baixos"
Valor: As ações caem em relação aos picos, enquanto as taxas dos
Treasuries recuam, bem como o dólar. Por outro lado, ativos de emergentes
se valorizam, a exemplo das commodities. O mercado está desequilibrado?
Wizman: Eu diria que os mercados estão reagindo a fatores muito
específicos. Pode-se pensar que falta lógica na alta do petróleo com as
ações em queda. Mas isso não é verdade. A valorização da commodity se
deve em parte à turbulência no Oriente Médio, que ameaça áreas de
produção. As ações caem porque os múltiplos estão em queda por causa
dos juros em alta. O caso do dólar exige um pouco mais de explicação.
Mesmo com o Fed subindo juros, a moeda tem recuado desde 2017 porque
outros bancos centrais estão inclinados a normalizar suas políticas
monetárias e também porque investidores se apegaram à tese de que o
dólar está perdendo seu status de moeda de reserva internacional.
Achamos que essas teses têm sua validade, mas ponderamos. De forma
geral, vemos o dólar se estabilizando nos próximos meses porque os EUA
ainda são vencedores em termos de crescimento econômico. Na Europa,
não estamos confiantes, por exemplo, no espaço que o banco central terá
para ajustar a política monetária a ponto de manter o dólar fraco ante o
euro. E os investidores até podem estar cansados de ver déficits fiscais e de
conta corrente nos EUA - o que entra no debate da perda de valor do dólar
como moeda de reserva. Mas, historicamente, os déficits não são
exatamente suficientes para corroer o apelo do dólar. No começo da
década de 1980 os EUA registraram grandes déficits, mas o dólar foi a picos
no período.
Valor: E o que chama atenção hoje em se tratando do Brasil?
Wizman: Certamente o trabalho do Banco Central na política monetária -
porém, mais recentemente, de forma negativa. É muito bom que o Brasil
tenha conseguido domar os preços, mas meu receio é que agora haja
alguma complacência com a história da inflação baixa. Como resultado,
temos um Banco Central que tem cortado os juros de forma
excessivamente agressiva e para patamares demasiadamente baixos. Um
dos efeitos colaterais é a perda de confiança na moeda. E isso pode criar
inflação à frente. Não estou sugerindo que o BC é a única razão da fraqueza
do real nas últimas semanas. A incerteza política também tem seu peso.
Mas acho que a própria eleição é algo que o BC deveria considerar no
gerenciamento de riscos. E no sentido de comunicar isso não acho que a
instituição tem feito um bom trabalho. Na segunda metade de 2017, o BC
parecia mais inclinado a discutir os juros reais, dando ênfase à necessidade
de reformas que permitiriam as taxas em patamares baixos. Mas agora, em
meio à ausência de qualquer certeza eleitoral, o BC continua cortando a
Selic, como se ignorasse o que vinha dizendo ao longo do segundo semestre
de 2017. Para mim é um foco excessivo nas condições correntes, sem levar
em conta o que pode acontecer caso as coisas não se materializem como o
esperado.
Valor: O real se deprecia 2% no ano, mas o Ibovespa sobe 12%, e a renda
fixa retorna 3,7%. O que está fora do lugar?