21/03/2018

Guerra dos EUA

Fonte: Folha de S. Paulo

O Brasil vive um momento de grande perplexidade agravado pela
disfuncionalidade do seu sistema político, pelo excesso de judicialização
dos atos administrativos e pela visível politização da Justiça num ambiente
de brutalidade social. Ela atingiu o seu paroxismo com o trágico assassinato
que indignou mesmo os que já haviam naturalizado a barbárie do Rio de
Janeiro.
A situação fiscal continua muito difícil, mas o “ambiente” econômico
melhora paulatinamente. Temer talvez termine o seu mandato tendo
superado a recessão e iniciado a recuperação do emprego com um
crescimento cíclico entre 2,5% e 3,0% e uma taxa de inflação de 4%.
Deixará, também, importantes medidas (a reforma trabalhista em
particular) que deverão elevar a produtividade do trabalho nos próximos
anos. Infelizmente, não conseguiu aprovar a reforma da Previdência, sem a
qual o Brasil caminhará para o caos.
É preciso reconhecer que é o aumento dos gastos com salários e
aposentadorias que reduz cada vez mais a imprescindível transferência
direta de renda aos menos favorecidos na forma de melhores serviços de
segurança, de saúde, de educação, de saneamento e mobilidade urbana,
que se processam por meio dos gastos do governo.
O primeiro bimestre deste ano revelou uma importante melhoria da
arrecadação fiscal. Há esperança que mesmo com a confusão política o
Tesouro terá mais fôlego e criará as condições para um ano fiscal menos
agitado. Até recentemente, as perspectivas externas também pareciam
tranquilas e estimulantes para a economia nacional.
Esse quadro benigno foi violentamente perturbado pela decisão do
presidente Trump de deslanchar uma ofensiva econômica contra a China
por causa de suas práticas comerciais e pela conhecida apropriação
indébita de propriedade intelectual. Espera-se um aumento das restrições
ao investimento chinês nos EUA e o endurecimento no intercâmbio entre
os dois países.
As exigências chinesas para aceitar os investimentos estrangeiros (clara
transparência de segredos tecnológicos e comerciais e obrigação de
parceria com empresas nacionais) sempre incomodaram os EUA. Não foram
resolvidas diplomaticamente na OMC, que também se tornou alvo do
voluntarismo irracional de Trump.
Parece que o plano “Made in China 2025” (em que se acentua o desejo de
autonomia da economia da China) foi a gota de água que colocou em
marcha a fúria americana. Ela pode perturbar fortemente o comércio
mundial e atingir os interesses de nossa economia e o emprego dos
brasileiros.
Nesse quadro perturbador, a pior solução é retaliar com irracionalidade.
Precisamos de sangue frio, paciência e inteligência.