19/02/2018

Gasolina do Brasil é a 2ª mais cara do mundo

Por André Ramalho e Bruno Villas Bôas | Do Rio

Fonte: Valor Econômico

Desde meados de 2017, quando a Petrobras passou a reajustar os preços
diariamente e o governo aumentou a carga tributária sobre o setor, os
preços da gasolina subiram cerca de 20% para o consumidor final. Com o
aumento, o Brasil se consolida no posto de uma das gasolinas mais caras
dentre os países produtores de petróleo, enquanto União, Petrobras,
distribuidoras e revendedores tentam se dissociar da escalada dos preços
dos combustíveis na bomba.
Levantamento da consultoria Air-Inc, que consolida estatísticas globais de
custo de vida e mobilidade, mostra que a gasolina vendida nos postos
brasileiros é a segunda mais cara dentre os 15 países que mais produzem
petróleo no mundo. De acordo com a pesquisa, obtida pelo Valor, a
gasolina é vendida no Brasil a US$ 1,30 por litro (considerando câmbio de
R$ 3,3 e preço médio de R$ 4,28). No ranking dos maiores produtores de
petróleo, só não é mais cara que o combustível vendido na Noruega.
Hoje, a estatal começa a adotar nova estratégia de divulgação de reajustes
nas refinarias. A companhia passará a divulgar, junto com as variação
percentual diária, o preço médio do litro da gasolina e do diesel nas
refinarias. A intenção é deixar claro que os preços praticados nas refinarias
correspondem a 1/3 dos preços na bomba.
Na semana retrasada, distribuidoras e postos entraram no centro de um
embate com o governo, que pediu ao Conselho Administrativo de Defesa
Econômica (Cade) para investigar possível formação de cartel no setor. O
presidente Michel Temer chegou a acusar publicamente as empresas da
cadeia de distribuição e revenda de não repassarem ao consumidor as
baixas nos preços nas refinarias.
O presidente da Associação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis,
Lubrificantes, Logística e Conveniência (Plural, ex-Sindicom), Leonardo
Gadotti, alega que as margens das atividades de distribuição, logística e
revenda caíram 7% desde meados de 2017. "O preço na refinaria tem tido
altos e baixos, mas na média subiu mais do que caiu."
Ele contesta a pressão feita pelo governo e explica que a carga tributária é
o fator mais relevante na composição dos preços dos combustíveis. Gadotti
lembra também que, em 2017, a alíquota do PIS/Cofins subiu de R$ 0,3816
para R$ 0,7925 para o litro da gasolina e de R$ 0,2480 para R$ 0,4615 para
o diesel nas refinarias. Houve, ainda, aumento de ICMS nos Estados.
Para o sócio-diretor da consultoria de pesquisa de mercado Triad Research,
Miguel Santos, postos têm optado muitas vezes por não repassar as quedas
ao consumidor devido ao aumento das incertezas operacionais. Segundo
ele, as empresas ainda vivem uma curva de aprendizado em relação aos
reajustes diários da Petrobras.
Os reajustes diários dificultam o planejamento de capital de giro dos postos,
diz Santos. A incerteza sobre um eventual aumento nos dias seguintes faz
com que a empresa segure o repasse, porque não sabe qual será seu caixa
para encomendar uma futura carga.
De acordo com dados da Air-Inc, nos EUA a gasolina comum custa quase a
metade da vendida no Brasil. Tom Kloza, chefe de análise de energia da
consultoria Opis, da IHS Markit, comenta que a gasolina americana é mais
barata por ter menos impostos. De acordo com a Agência Internacional de
Energia (EIA, na sigla em inglês), a carga de impostos ao consumidor, na
gasolina americana, é de 19%.
A gasolina mais barata entre os grandes produtores - e também no mundo,
considerando 198 países - é a da Venezuela. Grandes produtores associados
à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) também figuram
entre os países com a gasolina mais barata, como Kuait e Irã. "Nos países
da Opep os preços são ainda menores como resultado de um subsídio
patrocinado pelo Estado", disse Kloza. "A tendência tem sido de reduzir
esses subsídios."