16/01/2018

Escritórios já usam robôs que ajudam na escolha de estratégias nos tribunais

Por Zínia Baeta | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Solano de Camargo: agora tudo é feito de forma virtual, os documentos
possuem um QR Code e os clientes podem acessar todas as informações
Plataformas tecnológicas que indicam a tese jurídica mais adequada para
um processo, robôs que elaboram petições, contratos e apontam o melhor
viés de atuação em determinada vara ou tribunal. Atividades como essas,
até pouco tempo exclusivas dos advogados, já são realidade no meio
jurídico e utilizadas por alguns dos grandes escritórios nacionais.
"Adotamos robôs para atividades mais simples e recentemente investimos
em inteligência artificial para gerar ainda mais qualidade na elaboração de
peças", afirma Andressa Barros Figueiredo, sócia do Siqueira Castro
Advogados Associados.
Para a advogada, esse aumento de qualidade seria conseguido por meio da
capacidade do sistema de analisar a tendência de um magistrado, ou
tribunais, ao julgar determinado tema. Com isso, a possibilidade de se
promover uma defesa mais específica, com resultados mais favoráveis ao
cliente, seriam maiores.
Há um ano e meio a banca investe em plataformas tecnológicas voltadas
para a área jurídica, as chamadas "law techs". São 20 profissionais, dentre
eles um engenheiro, envolvidos na tarefa. "Temos intenção de investir em
startups, pois há boas ideias para a área sendo desenvolvidas", diz.
Em Recife, o octogenário escritório Urbano Vitalino Advogados adotou
Carol para as atividades do dia a dia. O robô, assim batizado, extrai
informações de processos, identifica, avalia e joga dados no sistema da
banca. A assistente virtual é uma plataforma desenvolvida pela IBM.
"Carol analisa e entende as informações, toma decisões sozinha baseada no
que aprendeu. Age como se fosse uma pessoa", diz Cristiano Sobral, diretorexecutivo
do escritório. Nas duas próximas fases do sistema, que devem
estar prontas até o fim do ano, será capaz de desenvolver estratégias de
atuação a partir da análise de jurisprudência de todos os tribunais do país.
De acordo Urbano Vitalino Neto, diretor-presidente do escritório, no médio
e longo prazos o sistema permitirá redução de 30% nos custos de tarefas
repetitivas. O escritório administra 70 mil processos em juizados especiais
e 25 mil na área trabalhista para clientes da área bancária, de saúde e
varejo. "Não é uma redução de quadro que buscamos, mas melhorar a
gestão, velocidade de apuração de informações e pesquisas, afirma.
Para o sócio da área de startups e inovação do TozziniFreire Advogados,
Rodrigo Vieira, a adoção desses sistemas reduz o tempo de tarefas e gera
economia. Além da diminuir possíveis erros e gerar uma capacidade de
análise mais ampla.
Um dos escritórios pioneiros em adotar plataformas tecnológicas, o Lee,
Brock, Camargo Advogados desenvolveu a partir de 2005 um sistema que
hoje é capaz de informar a clientes com grande número de processos na
Justiça, a quantidade de condenações, temas mais comuns, o que se
ganhou ou perdeu, gastos com custas e honorários e acordos por períodos,
por exemplo
A partir desse panorama, diz Solano de Camargo, sócio da banca, é possível
fazer previsões para os 12 meses seguintes, como provisões para as
despesas geradas pelas ações judiciais e potenciais novos processos. Em
uma etapa de "aconselhamento", o sistema pode indicar se, em
determinado processo, o melhor seria um acordo, o quanto deveria ser
gasto nele, ou qual tomada de decisão mais adequada a partir do histórico
processual da empresa.
De acordo com Camargo, na época em que foi adotado esse tipo de
tecnologia, não existia nada pronto no mercado e por isso foi desenvolvida
internamente no escritório, que hoje conta com 40 profissionais somente
nessa área - programadores, engenheiro de produção e arquiteto de
sistema. "Em 2005 quando ninguém falava de nuvem, abolimos o papel e
estamos cada vez mais automatizados", diz.
Aplicada aos clientes corporativos do escritório, a plataforma administra os
contratos nacionais e internacionais de clientes para 13 países diferentes e
indica quais estão perto do vencimento, se devem ser renovados, reajustes
financeiros necessários. "Agora tudo é feito de forma virtual, os
documentos possuem um QR Code e o cliente pode acessar todas as
informações."
Apesar de exceções, a inteligência artificial em escritórios de advocacia é
algo recente, afirma o advogado Bruno Feigelson, presidente da Associação
Brasileira de Lawtechs & Legaltechs (AB2L), entidade fundada em março do
ano passado. Até 2016, afirma, as bancas e empresas eram muito
tradicionais e o investimento em tecnologia era algo secundário.
Segundo Feigelson, há quatro principais áreas de interesse do mercado
jurídico atualmente. São as plataformas para fechar acordos em processos,
sistemas de jurimetria (tenta antever como o magistrado julga determinado
tema), automação de tarefas, como a elaboração de documentos e petições
simples, e a busca, em bancos públicos de dados, de informações sobre
pessoas físicas e jurídicas, como bens de devedores e mudanças legislativas
por tema e área.
Para Feigelson, apesar de se dizer que os advogados poderão ser
substituídos pelas máquinas, isso não ocorrerá. Apenas as funções vão
mudar. "Aquelas repetitivas vão ser feitas por máquinas e as efetivamente
intelectuais pelos advogados".
Tiago Melo, doutor em gestão de negócios e executivo de produtos na
Softplan, empresa de desenvolvimento de softwares de gestão, diz que os
modelos que apontam teses jurídicas sempre exigirão um advogado para
indicar erros e acertos. "Sem uma curadoria não há como ter um modelo
bom". De acordo com ele, apesar da curiosidade, a demanda por
inteligência artificial ainda é baixa em relação ao potencial do mercado
jurídico.