25/06/2018

Empresas em dificuldade financeira atraem gestores

Por Silvia Rosa | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

O aumento de empresas em dificuldade financeira tem atraído o interesse
de fundos especializados em ativos problemáticos ("distressed assets").
Gigantes do mercado internacional, como os fundos Apollo, Cerberus,
Aurelius, Blackstone, Lone Star e Oaktree, têm olhado esse mercado e
participado de alguns negócios no Brasil. Brasileiras como a Starboard
Restructuring Partners e a IG4 Capital também têm buscado oportunidades
de investimento em ativos em situações especiais, de empresas em
dificuldade financeira ou que precisem de reestruturação.
A gestora IG4 Capital, que tem uma parceria com a Cerberus na busca por
investimentos no Brasil, está em fase de captação de um segundo fundo de
US$ 400 milhões, dos quais parte dos recursos será destinada para o setor
de saúde em ativos de empresas com necessidade de capital. A gestora
criou uma holding para fazer aquisições nesse setor.
A IG4 Capital já tem um fundo, o FIP Iguá, de R$ 410 milhões, que investiu
na CAB Ambiental, hoje Iguá Saneamento. "Nosso foco é buscar 'especial
opportunities' e investir em bons ativos que estejam precisando de
reestruturação financeira ou operacional", diz Paulo Mattos, sócio e
fundador da IG4 Capital.
Segundo o executivo, a gestora tem buscado oportunidades nos setores de
infraestrutura, hospitalar, imobiliário e industrial. "Faz sentido ter uma
estratégia de investimento anticíclica", afirma Mattos.
De acordo com o Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações,
de janeiro a maio de 2018 foram registrados 654 pedidos de recuperações
judiciais, aumento de 13,9% em relação ao mesmo período de 2017. As
micro e pequenas empresas representaram 65% dessa amostra. "Parte
dessas empresas poderia não ter ido para recuperação judicial se tivesse
conseguido um acordo para receber capital novo", diz Mattos.
Já a Starboard Restructuring Partners fechou, no fim do ano passado, uma
parceria com o fundo americano Apollo, que comprou 20% da gestora e vai
destinar recursos para investimentos conjuntos. A gestora captou um
segundo fundo para comprar ativos em situação especial, de US$ 375
milhões, sendo US$ 250 milhões da Apollo, e já tem uma carteira com dez
operações em análise. "Temos cerca de R$ 1,3 bilhão para investir e
imaginamos fazer de cinco a sete investimentos", afirma Meton Morais,
sócio da Starboard.
O primeiro fundo, de R$ 120 milhões, investiu em quatro empresas com
retorno de 75% ao ano em pouco mais de dois anos, já tendo saído de duas
delas.
Nesses investimentos, a gestora pode entrar tanto no capital quanto
adquirindo dívida dessas empresas. "A Mineração Caraíba, por exemplo,
estava em recuperação judicial. Reestruturamos a dívida e trouxemos a
empresa de volta à operação", afirma Morais. A saída do investimento se
deu através de uma oferta pública de ações (IPO) da empresa na bolsa de
valores do Canadá. "Procuramos empresas em dificuldade financeira e não
temos foco em um setor específico", afirma Morais.
O envolvimento de diferentes companhias, principalmente do setor de
construção, na Operação Lava-Jato fez com que muitas delas entrassem em
dificuldade financeira, tendo que vender ativos para manter a operação.
Isso trouxe oportunidades para esses fundos.
"É óbvio que tem que tomar um cuidado adicional nesses casos, mas o ativo
não precisa morrer porque o controlador teve um problema de
compliance", afirma Mattos, da IG4 Capital.
Ele lembra que no exterior os fundos já investiram em ativos de empresas
envolvidas em escândalos de corrupção como a Siemens, Alstom e Enron.
"Nos Estados Unidos se troca logo o controlador e empresa volta a rodar.
No Brasil, demora-se demais para trocar o controlador, que não quer abrir
mão da empresa", diz Mattos.
Morais, da Starboard, também acha que existe oportunidade para compra
de ativos. "Parte dessas empresas têm grandes estruturas e consegue fazer
a venda de ativos."
A IG4 Capital, por exemplo, avalia, segundo fontes, a compra, em parceria
com a suíça Zurich Airport, do aeroporto de Viracopos, que entrou em
recuperação judicial neste ano e cuja concessão pertence às empresas
Triunfo Participações e Investimentos (TPI) e UTC, ambas empresas
investigadas na Lava-Jato.
A Starboard, junto com outros de investidores, chegou a avaliar a compra
da participação da Odebrecht Transport na concessionária de transporte
ferroviário SuperVia. Já o fundo Apollo chegou a estudar uma oferta pelo
Estaleiro Atlântico Sul (EAS), controlado por Camargo Corrêa e Queiroz
Galvão. A gestora não se pronunciou sobre os casos específicos.