25/04/2018

Empresa reduz proteção contra dólar alto

Por José de Castro | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

O dólar não para de subir, mas aparentemente esse movimento ainda não
tem preocupado o setor corporativo. Apesar da alta de 5% da moeda
apenas neste mês, as empresas têm arrefecido a demanda por proteção de
seus passivos para o caso de uma valorização da divisa americana. É o que
mostram números da B3, segundo os quais as companhias têm vendido
mais dólares do que comprado. Para alguns analistas, isso revela que o
mercado tem subestimado os riscos de uma disparada do dólar que, se
acontecer, poderá ser retroalimentada à medida que investidores tentarem
correr "atrás do prejuízo".
Nos 18 primeiros dias de abril, as empresas venderam um total de US$ 8,64
bilhões via contratos de câmbio a termo (conhecidos como NDFs, sigla de
Non Deliverable Forwards) registrados na B3. Os NDFs servem como
instrumentos de "hedge". Assim, costumam ser demandados quando
investidores veem mais riscos de movimentos abruptos na taxa cambial.
Decorridos 60% dos dias do mês, o volume de vendas de dólares via NDFs
registrados na B3 já equivale a 88% do registrado em todo o mês de abril
de 2017. E os números podem aumentar, já que tradicionalmente há
concentração de fechamento de operações na última semana de cada mês.
Se as vendas parecem mais aceleradas, o contrário se percebe nas compras.
Nos mesmos 18 primeiros dias do mês, as empresas compraram dos bancos
o equivalente a US$ 5,79 bilhões em NDFs. Transcorrida mais da metade do
mês, o valor está 40% abaixo do registrado em todo o mês de abril de 2017.
No somatório do primeiro trimestre, o volume de compra líquida de moeda
caiu 4% ante o mesmo período do ano passado. A variação parece modesta,
mas chama atenção considerando que, um ano atrás, o dólar médio estava
10 centavos de real mais barato.
Segundo Fábio Zenaro, diretor de Produtos da B3, os números refletem
uma crença de que o dólar pode não se sustentar nos atuais patamares. "O
raciocínio do exportador parece ser o de aproveitar a taxa alta agora para
travar operação, antes que o dólar caia", explica.
Zenaro esclarece que os números se referem a dados de empresas em
geral, mas que grande fatia do volume diz respeito a companhias
exportadoras e importadoras. Nesse sentido, o executivo diz que os
exportadores, prevendo um momento de maior volatilidade, podem estar
antecipando a montagem de hedge, o que ajudaria a explicar o volume
chamativo de vendas de dólares em abril.
A mesma linha de entendimento vale para explicar o motivo da queda da
demanda por compra de dólares por meio de contratos de balcão. "O
comprador de moeda estrangeira pode estar vendo o dólar agora caro
demais. Não valeria a pena comprar", afirma Zenaro.
Essa tese "conversa" com as projeções do mercado para a taxa de câmbio
ao longo dos próximos meses. Entre a mínima do ano (25 de janeiro) e o
fechamento da semana passada, o dólar comercial subiu 28 centavos de
real. Mas a projeção máxima para 2018 (prevista para setembro, mês que
antecede as eleições) andou apenas 5 centavos, de R$ 3,33 em janeiro para
R$ 3,38 na semana passada. Essa taxa ainda está 10 centavos (quase 3%)
abaixo da máxima alcançada ontem (R$ 3,4812).
No fechamento, o dólar até desacelerou a alta, mas ainda ficou em R$
3,4681 (alta de 0,48%), nova máxima desde dezembro de 2016. O quarto
pregão seguido de ganhos para o dólar impediu uma queda nos juros
futuros. A taxa do contrato de DI para janeiro de 2021 ficou estável, em
7,95% ao ano, depois de oscilar entre 8,00% e 7,90%.
Segundo Luiz Masagão, diretor de Tesouraria-Clientes do Santander Brasil,
a queda na demanda por hedge para proteção contra alta do dólar está
relacionada à ainda baixa percepção de risco. Para ele, os números
sinalizam que as empresas não têm expectativa de uma "ruptura" nos
próximos meses. "As companhias estão confortáveis com o dólar entre R$
3,30 e R$ 3,50", diz o executivo, acrescentando que a taxa de R$ 3,50 é mais
um "número redondo" do que um patamar além do qual haverá corrida por
dólares.
Porém, Masagão acredita que "faria sentido" o mercado buscar mais
proteção cambial no atual contexto, marcado por incerteza política e
também por um ambiente internacional mais volátil. Ele relata que a queda
do diferencial de juros tem pressionado o câmbio, mas que em abril o
"spread" entre as taxas do cupom cambial (juro em dólar no Brasil) e a Libor
(referência para o custo bancário no mercado londrino) aumentou
ligeiramente.
"O fluxo dos bancos [contratando linhas lá fora e aplicando no cupom] subiu
um pouquinho, mas longe do que já foi", diz, citando um fator a adicionar
mais risco de alta do dólar.