22/02/2018

Economia resiste a incertezas e ganha tração

Por Estevão Taiar, Sergio Lamucci, Thais Carrança e Ana Conceição | De São
Paulo

Fonte: Valor Econômico

Imune às incertezas políticas, a atividade econômica ganha tração desde o
fim do ano passado e mostra sinais promissores neste começo de 2018. Os
indicadores já conhecidos levaram alguns economistas, como os da LCA
Consultores, a revisar para cima ou colocar uma espécie de viés de alta nas
suas projeções de crescimento para este ano. Na ponta mais otimista
continua o Banco Fibra, que há alguns meses projeta expansão de 4,1%.
No Boletim Focus divulgado na segunda-feira pelo Banco Central (BC), a
projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 subiu de 2,7% para
2,8%. Isso ocorreu mesmo antes de ser conhecido o Índice de Atividade
Econômica do Banco Central (IBC-Br), que cresceu 1,41% entre novembro e
dezembro, surpreendendo positivamente os analistas.
Esse movimento vem acontecendo apesar de uma leve piora da conjuntura
política nas últimas semanas, com o enterro da reforma da Previdência e
um cenário cada vez mais nebuloso para a disputa presidencial.
O sentimento mais positivo em relação ao potencial da atividade
econômica neste ano foi intensificado após a divulgação de alguns
indicadores de dezembro, como a produção industrial e o próprio IBC-Br,
que se revelaram melhores do que o esperado. A indústria avançou 2,8%
sobre novembro, na série com ajuste sazonal.
Anteontem, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) informou
ainda que, pelos seus cálculos, o investimento, medido pela Formação
Bruta de Capital Fixo (FBCF), registrou alta de 4,2% em dezembro. O dado
indica que, ao fim de 2017, a FBCF rodava em ritmo mais forte, embora no
acumulado do ano passado tenha recuado 2%. Ao mesmo tempo, o cenário
para a inflação se mostra mais comportado que se previa, o que pode abrir
espaço para um eventual corte adicional nos juros básicos, dos atuais 6,75%
para 6,5% ao ano.
Por conta do desempenho mais expressivo visto em dezembro, os dados de
janeiro podem se mostrar mais modestos. Os sinais dados pelos indicadores
antecedentes já conhecidos são mistos. Dessazonalizados pela Tendências
Consultoria, o fluxo pedagiado de veículos pesados (0,3%) e a produção de
veículos (2,4%) tiveram queda em relação a dezembro. A confiança
industrial ficou estável, mas subiram o fluxo pedagiado de veículos leves
(0,1%), a atividade do comércio (0,1%), a confiança do consumidor (0,5%),
a expedição de papel ondulado (0,7%) e as vendas de veículos (1,2%). Esses
dados de janeiro não impedem o viés favorável para a economia.
"O debate está mudando", disse nesta semana o economista-chefe do Itaú
Unibanco, Mário Mesquita. Dentro da equipe econômica do banco, vem
ganhando força a discussão sobre a possibilidade de o PIB crescer acima da
estimativa atual de 3% neste ano. "Isso contrasta com o [cenário menos
otimista] que a gente tinha há um tempo", afirmou.
Esse otimismo maior é explicado por uma retomada do crédito de toda a
economia, "que joga impulso na atividade econômica", e pela queda
generalizada da inadimplência. Outros fatores positivos recentes
destacados pelo Itaú são o crescimento mais disseminado da produção
industrial e o início de uma geração mais forte de empregos formais. O PIB
mensal calculado pelo próprio Itaú Unibanco (PIBIU) teve alta de 0,5% em
dezembro na comparação com o mês anterior. Para janeiro, a previsão é
que o indicador cresça 0,2%.
A LCA Consultores, por sua vez, elevou a projeção de crescimento de 2018
de 2,5% para 2,8%, destacando que a melhora da atividade econômica
parece se sobrepor às incertezas no cenário político. Para a consultoria, o
resultado favorável de dezembro do IBC-Br "sugere que a economia
brasileira encerrou o ano passado crescendo em ritmo um pouco mais firme
do que vínhamos antecipando".
Esse resultado fez a LCA mudar também a previsão de crescimento para
2017, de 0,9% para 1%, o que elevou ligeiramente a herança estatística
estimada para 2018, calculada em 0,4% - antes, era zero. Isso significa que,
se o PIB terminar o ano no mesmo nível projetado pela LCA para o fim do
ano passado, a economia terá expansão de 0,4% em 2018. Para o PIB do
quarto trimestre de 2017, a ser divulgado em 1º de março pelo IBGE, a LCA
acredita que houve um avanço de 0,2% sobre o trimestre anterior, em
termos dessazonalizados.
Fatores como os juros no menor patamar histórico, o início de uma redução
dos spreads bancários, a maior disposição dos bancos em conceder
empréstimos, a melhora na confiança dos empresários e o cenário externo
favorável jogam a favor da atividade mais forte, diz Francisco Pessoa Faria,
economista da consultoria. As incertezas políticas continuam como o maior
risco para a atividade. "Ainda existe uma indefinição enorme sobre as
candidaturas presidenciais", diz. Mesmo assim, as dúvidas sobre a eleição
não contaminam a economia por enquanto, afirma ele.
Pessoa também destaca as altas da produção de veículos (24,6%) e do fluxo
pedagiado (2,4%) em janeiro na comparação com o mesmo mês do ano
passado, resultado que considera um retrato mais fiel da atividade do que
as variações mensais, mesmo dessazonalizadas.
Para Thiago Xavier, economista da Tendências, a alta de 1,41% do IBC-Br
em dezembro já confirmava esse ritmo maior de crescimento. Portanto, a
possível queda de índices em janeiro "tem que ser visto à luz de um
dezembro muito bom". "É uma certa acomodação, que não coloca em risco
as perspectivas positivas para o início de 2018", diz.
Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong, tem opinião semelhante.
"Dado que o comércio não foi muito bom em dezembro, a tendência é de
um resultado um pouco melhor em janeiro. No caso da indústria, deve
acontecer o contrário."
Nos cálculos de Marco Caruso, economista do Banco Pine, o IBC-Br do
quarto trimestre de 2017 deixa uma herança estatística de 1% para os três
primeiros meses deste ano. Ele também afirma que a tendência é que em
janeiro a atividade "devolva um pouco desse dezembro forte". "Mas ainda
assim a história do primeiro trimestre é uma história boa."