07/02/2018

Demora da Receita em realizar cálculo do Refis causa incerteza

Por Marcello Corrêa / Glauce Cavalcanti

Fonte: O Globo

RIO - A demora da Receita Federal em realizar um acerto de contas do novo
Refis tem gerado incerteza entre empresas que aderiram ao plano,
anunciado pelo governo em 2017. As parcelas do Programa Especial de
Regularização Tributária (Pert) começaram a ser pagas em janeiro, mas o
Fisco ainda não fez um procedimento chamado consolidação, em que o
órgão compara as informações de seu banco de dados com os cálculos dos
contribuintes. Enquanto o procedimento não é feito, as firmas ficam
sujeitas a pagar mais ou menos que o necessário. Dessa forma, podem ter
de pagar a diferença no futuro, sob pena de serem excluídas do programa.
Segundo a Receita, mais de 160 mil empresas ingressaram no Pert,
incluindo as que tinham dívidas previdenciárias e as que deviam tributos
diretamente ao órgão. A expectativa é que o processo seja feito no segundo
semestre. “Esse é um prazo estimado, pois depende do desenvolvimento e
da construção de sistemas informatizados, o que demanda tempo, recursos
financeiros e pessoal capacitado”, destacou a autarquia.
De acordo com o advogado Deiwson Crestani, do escritório Gaia Silva
Gaede, que atende a empresas que aderiram ao Pert, a demora na
consolidação tem causado insegurança. Crestani destaca que o
procedimento da Receita tem sido mais demorado que o da Procuradoria-
Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Também incluído no programa de
regularização, o órgão fez a consolidação de contas no momento da adesão,
o que facilitou a vida dos contribuintes, diz ele:
- A demora está causando ansiedade nos contribuintes. Uma das principais
regras do programa é que a empresa não pode ter débitos a partir do
momento que fez a adesão. Isso gera receio por possíveis débitos que
venham a ocorrer.
BUROCRACIA MAIOR
Entre empresários, as queixas também incluem a burocracia causada pela
falta das contas consolidadas. Enquanto o procedimento não é realizado,
emitir a Certidão de Regularidade Fiscal, por exemplo, é mais complicado.
Em vez de fazer o processo pela internet, o contribuinte que aderiu ao Pert
precisa levar a documentação a um posto da Receita para obter um
documento especial, que informa que há débitos, mas as dívidas foram
parceladas.
- Tem essa burocracia de precisar ir a um posto com toda a documentação,
memória de cálculos, esperar os dez dias pelo documento. Tem
contribuinte que nem sabe que existe esse formulário — observa a
advogada tributária Vanessa Cardoso, sócia do De Vivo, Whitaker e Castro
Advogados.
O procedimento do Fisco também poderia evitar eventuais erros das
empresas. Um empresário carioca que prefere não se identificar conta que
está pagando quatro vezes mais do que planejara. E atribui o problema à
falta de consolidação:
- Estava imaginando que iria pagar o valor que foi previsto pelo site da
Receita. Agora, o valor é muito maior, porque a Receita não consolidou as
dívidas internamente.
Outro risco é de divergências nos cálculos de créditos tributários. Segundo
especialistas, é possível que as contas das empresas não batam com as da
Receita, uma vez que alguns desses créditos podem não ter sido
homologados pelo Fisco.
- Somente vamos saber se há algum ajuste na consolidação. Esse é um risco
que todo mundo que utilizou crédito tem. Suponhamos que você tenha
uma discussão lá no passado. Você entende que seu crédito é bom, e a
Receita tirou da sua base um pedaço desse valor. Esse risco existe — afirma
um funcionário de uma empresa que pagou a dívida na íntegra, usando os
créditos.
Apesar das incertezas, a orientação de especialistas é continuar pagando
normalmente, para fazer o acerto de contas. Se houver necessidade de
pagamento complementar, haverá um prazo para fazê-lo à vista. Caso
tenha pago mais, a restituição será abatida das parcelas seguintes.
- A Receita vai consolidar e ver se há alguma diferença. Havendo diferença,
eles dão o prazo para pagar a diferença, se for o caso — explica o diretor
tributário da Confirp Consultoria Contábil, Welinton Mota.
Mais três programas
O processo de consolidação é tradicionalmente demorado. Segundo a
Receita, há outros três programas de regularização com as contas em
aberto. O mais recente é o Programa de Regularização Tributária (PRT), que
antecedeu o Pert. Apenas os débitos previdenciários foram consolidados,
faltam os outros débitos. O público afetado nesse caso é menor, porque
muitos contribuintes migraram do PRT para o Pert, mais vantajoso. Os
outros dois programas com a consolidação em aberto são o Programa de
Regularização de Débitos Previdenciários dos Estados, Distrito Federal e
Municípios (Prem) e o PRR (Programa Especial de Regularização Tributária
Rural), ambos de 2017.