18/05/2018

Crime omissivo impróprio é modo de punir dirigentes de empresas, diz Pierpaolo

Por Fernando Martines

Fonte: Consultor Jurídico

A doutrina correta para se responsabilizar pessoas físicas por delitos
cometidos por empresas não é utilizada, na avaliação do criminalista
Pierpaolo Cruz Bottini. O advogado, que atua em casos da operação “lava
jato”, entende que o conceito correto para esses casos é o de crime
omissivo impróprio — um tipo quase ignorado pela dogmática e pela
jurisprudência.
Pierpaolo foi um dos palestrantes do primeiro dia do seminário de Direito
Contemporâneo organizado pela Universidade Humbold da Alemanha e
pela Faculdade de Direito da USP, em São Paulo.
Ele falou sobre a dificuldade de o Direito Penal conseguir identificar e
responsabilizar pessoas por danos e lesões no âmbito empresarial.
“Ninguém tem domínio pleno da cadeia produtiva em um contexto da
massificação da produção e da relação de consumo. Daí que nasce o
termo ‘irresponsabilidade organizada’. Acontece de várias pessoas terem
pequenas atitudes, aparentemente inócuas, e a soma dessas condutas
gera o dano. Assim, o Direito Penal tem uma dificuldade brutal de
identificar responsabilidade da pessoa física”, disse.
O advogado afirma que, caso seja utilizada a definição clássica de culpado
como quem faz o ato, presidentes e diretores de empresas muitas vezes
não devem responder, já que são seus subordinados que fazem o que é
popularmente conhecido como trabalho sujo.
Fora de contexto
Um caminho que se tem adotado no Brasil, desde o julgamento da Ação
Penal 470, o processo do mensalão, é utilizar a teoria do domínio do fato:
quem está no topo tem a capacidade de saber de tudo e de interromper
desmandos.
O criminalista não concorda com a forma como o entendimento alemão
tem sido aplicado no Brasil, já que as empresas são organismos coletivos e
de muitos tentáculos, o que dificulta essa sequência de fatores.
“Posso usar a teoria dos aparatos organizados do poder, que diz que ao se
colocar em ação um aparato ou uma estrutura , o que as pessoas fazem
dentro deste contexto é responsabilidade sua. Ainda que não se tenha
pleno conhecimento de tudo, pois são seus soldados. Mas os autores
alemães dessa teoria dizem que isso não se aplica a empresas de atividade
lícita”, afirma.
Foco no sujeito
A teoria do crime omissivo impróprio, explica Pierpaolo, determina que
seja definido internamente um profissional responsável por impedir
determinados resultados e práticas — chamado de “garante”. Caso
irregularidades aconteçam, ele é quem seria responsabilizado
penalmente, se comprovado dolo em sua omissão.
“Isso gera uma série de pontas soltas na nossa dogmática: eu posso
responsabilizar alguém pelo comportamento doloso de outra pessoa, de
um funcionário? Temos que fixar o que é poder do garante, o tamanho do
dolo, se aplica-se cegueira deliberada. E temos que fazer isso com
jurisprudência, mas as cortes ignoram esse conceito que está previsto no
código penal. Só as jurisprudências irão dar as respostas para essas pontas
soltas”, ressalta.