05/03/2018

Brasileiro deve levar ainda quatro anos para recuperar padrão de vida pré-crise

Por Bruno Villas Bôas e Ligia Guimarães | Do Rio e de São Paulo

Fonte: Valor Econômico

O início de recuperação da atividade econômica foi acompanhado de uma
melhora modesta no padrão de vida do brasileiro. O Produto Interno Bruto
(PIB) per capita - soma de riquezas produzidas pelo país dividida por seus
habitantes - cresceu apenas 0,2% em 2017, para R$ 31.587. Foi o primeiro
aumento em base anual desde 2013. O brasileiro ainda vai esperar, porém,
quatro anos para recuperar o padrão alcançado no período pré-crise.
Segundo cálculos da LCA Consultores, além do desempenho modesto no
ano, o PIB per capita parou de crescer no quarto trimestre. O indicador
recuou 0,14% frente aos três meses anteriores, na série com ajuste sazonal,
após resultados positivos nas três leituras anteriores - crescera 1,1% no
primeiro trimestre, 0,4% no segundo e 0,05% no terceiro trimestre de 2017.
"A economia cresceu forte no primeiro trimestre puxado pelo setor de
agronegócio e indústria. Depois veio o consumo, com apoio do Fundo de
Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) [liberação de depósitos de conta
inativas]. Desde então, o PIB começou a desacelerar na margem e, como a
população continuou crescendo 0,2% por trimestre, o indicador acabou de
volta ao campo negativo no fim do ano", disse Rodrigo Nishida, economista
da LCA.
O problema adicional é que a recuperação da economia ainda não abarcou
a todos. O mercado de trabalho absorveu uma pequena parcela do
contingente de desempregados. No final do ano passado, 12,7 milhões de
trabalhadores estavam na fila de emprego no país, de acordo com dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desses, 5 milhões
estavam em busca de trabalho havia uma ano ou mais.
Além disso, a riqueza gerada é desigualmente distribuída. Dados da FGV
Social mostram que a desigualdade subiu durante e depois da recessão,
atingindo no fim do ano passado a maior concentração dos últimos 30 anos.
De acordo com o IBGE, o índice de Gini - medida de desigualdade da
distribuição da renda - foi de 0,549 em 2016, nível semelhante ao do Lesoto
(0,542).
De acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getulio Vargas (Ibre-FGV), a recessão de 2014 a 2016 reduziu em 8,7% o PIB
per capita do país, a segunda maior queda registrada desde 1900 - ou seja,
em 116 anos. Essa perda de riquezas por habitante foi maior apenas do que
na recessão de 1981 a 1983 (-12,3%).
Com a aceleração da atividade econômica daqui para frente, a expectativa
é que o indicador inicie uma recuperação mais consistente. Nos cálculos da
4E Consultores, o avanço será de 1,2% em 2018 e de mais 2,5% no ano
seguinte. O indicador deve recuperar o patamar de 2013 - ano pré-crise -
dentro de quatro anos. A recuperação econômica será demorada, em parte,
porque a população vai continuar crescendo.
O secretário de Acompanhamento Fiscal, Energia e Loteria do Ministério da
Fazenda, Mansueto Almeida, concorda com a ideia de que o país levará um
tempo para recuperar a renda per capita, que cresceu em ritmo menor que
a economia.
"Vai demorar um tempo para recuperar a renda per capita, que está caindo
desde 2014", afirmou Mansueto, após participar de debate sobre o
relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE) sobre a economia brasileira, no Insper, em São Paulo.
Na estimativa do secretário, a renda per capita no Brasil acumulou queda
de mais de 9% durante a recessão de 2014 a 2016. Para ele, a recuperação
exige que a economia entre em um ciclo consistente de crescimento nos
próximos anos. "Se a economia ficar crescendo em torno de 3%, você vai
recuperar a renda per capita lá em torno de 2020 em relação ao que era em
2011", prevê Mansueto.
Alejandro Padron, um dos sócios da 4E Consultoria, acredita que outros
indicadores da economia sinalizam para uma melhora de bem-estar da
população daqui para frente. "Temos uma perspectiva de melhora do
mercado de trabalho, além de inflação menor, juros menores. Então, o
consumidor já teve um medo maior sobre o futuro do que tem hoje", disse
Padron.