08/03/2018

Brasil teme perder mercado de aço na Europa

Por Assis Moreira | De Genebra

Fonte: Valor Econômico

O que está péssimo pode ficar pior. É como o Brasil e outros países
reclamaram junto à União Europeia (UE) diante do plano de Bruxelas de
também restringir as importações de aço e alumínio.
Segundo maior exportador de aço para os EUA, o Brasil vai sofrer com a
sobretaxa unilateral que Donald Trump pretende impor. E será igualmente
atingido com a reação europeia de proteger o mercado comunitário de 28
países (o Reino Unido ainda não deixou o bloco formalmente).
A comissária europeia de Comércio, Cecilia Malmström, alegou que a
sobretaxa de 25%, anunciada por Trump, representará restrição de entrada
de 15 milhões de toneladas de aço no mercado americano. Significa que os
exportadores vão procurar redirecionar esse enorme volume para outros
mercados, a começar para a UE.
Para evitar essa "inundação" de aço barato, Bruxelas pretende impor uma
salvaguarda global de emergência contra súbitos aumentos de importação,
o que normalmente pode durar três anos sem compensar os parceiros
prejudicados. O Brasil já exporta menos aço para a Europa depois da
imposição pela UE, no ano passado, de sobretaxa antidumping que varia de
€ 53,4 a € 63 por tonelada de laminado a quente, usado para construção e
maquinário.
Além disso, o bloco europeu acha que a sobretaxa americana não tem nada
a ver com segurança nacional, e considera ter o direito de retaliar produtos
americanos. Estão na mira desde uísque bourbon, suco de laranja, milho,
camisas, jeans, cosméticos e outros bens de consumo até motos e barcos,
mas unicamente dos EUA. Os europeus alegam que retaliarão somente os
americanos, nesse contexto, e não importações procedentes de outros
países.
A UE pode facilmente adotar salvaguarda global, mas a retaliação a
produtos de um só país tem mais justificação política do que amparo nas
regras internacionais. Importantes especialistas, como Gary Hufbauer, do
Peterson Institute, em Washington, consideram a retaliação inevitável, até
para evitar novas medidas protecionismo de Trump.
No governo brasileiro, no momento, impera a postura "low profile", sem
tom guerreiro, no aguardo dos detalhes da medida unilateral de Trump.
Tampouco estaria sendo preparada uma lista de produtos americanos
sujeitos a retaliação. Porém, quem conhece o comércio bilateral sabe que
o primeiro produto passível de retaliação é o etanol. O Brasil importa muito
dos Estados Unidos, com isenção de imposto, e pode aumentar bastante a
alíquota, se quiser.
Em Nova York, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que o
governo brasileiro precisa ser cuidadoso para não entrar em uma guerra de
palavras com Washington, "que pode ser tão negativa quanto os fatos".
Segundo ele, é preciso "esperar para ver como esta situação se
desenvolve".
Para o ministro, a política protecionista defendida por Trump é "negativa
para os EUA e para o mundo. A questão do aço prejudica a todos, inclusive
a própria indústria americana, que teria de pagar um preço mais alto pelo
aço".
O Brasil e um número crescente de países voltaram a protestar na
Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a medida americana, mas
nenhum ameaçou claramente com retaliação ou denúncia no Órgão de
Solução de Controvérsias da OMC, aguardando medida formal a ser tomada
por Trump.
Para o Brasil, existe um forte perigo de se usar a exceção de segurança
nacional, prevista em artigo da OMC, para restringir importações. O país
pediu para a administração Trump rever a decisão. A China foi enfática
contra a ação de Trump. Rússia e Turquia também se manifestaram. A
delegação americana na OMC permaneceu calada. (Colaborou Eduardo
Graça, de Nova York, para o Valor)