19/06/2018

Bancos pequenos e médios vão competir na emissão de boletos

Por Vinícius Pinheiro | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

O serviço de emissão de boletos de pagamento pode deixar de ser um
negócio dominado pelos grandes bancos. A falta de uma rede de agências,
principal barreira para a entrada de instituições de pequeno e médio porte
nesse mercado, começou a ser derrubada com a nova plataforma de
cobrança, que permitirá o pagamento de boletos em toda a rede bancária
mesmo após a data de vencimento.
O volume de boletos liquidados é da ordem de 4 bilhões por ano, de acordo
com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). As instituições
financeiras cobram uma tarifa por título emitido, que varia conforme o
relacionamento com o cliente, mas que costuma variar entre R$ 1,50 e R$
5,50. É de olho no potencial desse mercado que os bancos menores e
empresas de meios de pagamento se movimentam.
O estímulo à concorrência foi uma espécie de "efeito colateral" da nova
plataforma de cobrança. "Era algo esperado e até bem vindo, mas não o
principal objetivo do projeto", diz um executivo que acompanha o assunto.
O sistema foi criado para coibir fraudes na emissão de boletos.
Sem o registro, o banco só toma conhecimento da emissão do boleto
quando o documento bate na compensação, o que facilita a ação dos
criminosos. As perdas com fraudes em boletos bancários somaram R$ 383
milhões em 2016, alta de 2,5% em relação ao ano anterior, de acordo com
o último dado disponível da Febraban.
Com o novo sistema, que está em fase de implantação, todos os boletos
passarão a ser registrados em uma única plataforma. No momento em que
o cliente fizer pagamento da cobrança, os dados do código de barras serão
comparados com os do sistema. Se as informações não baterem, existem
duas possibilidades: ou o boleto foi fraudado ou não foi registrado. O
registro não é obrigatório, mas as cobranças que não estiverem na base só
poderão ser pagas no banco que emitiu o boleto.
A previsão inicial era que o sistema estivesse plenamente em operação no
fim do ano passado, mas o projeto vem sofrendo constantes adiamentos.
Atualmente, apenas os boletos com valor acima de R$ 800 precisam ser
registrados. A expectativa da Febraban agora é que todas as cobranças,
inclusive as de cartão de crédito e de doações, estejam na plataforma a
partir do dia 10 de novembro.
Antes do sistema de registro, as instituições financeiras sem uma rede de
agências precisavam contratar os serviços de emissão de boletos de um
grande banco para fazer suas cobranças ou em nome de clientes. Isso
porque, após a data de vencimento, o pagamento só podia ser feito na
instituição que emitiu o título, o que dificultava o recebimento.
"Agora, qualquer um pode emitir cobranças e fazer recebimentos nas
mesmas condições dos grandes bancos", afirmou o diretor de uma
instituição que atua no financiamento ao varejo e emite pouco mais de 1
milhão de boletos por mês.
Com a nova plataforma, o banco já tomou a decisão de emitir os próprios
boletos e já está fazendo os primeiros testes, segundo o executivo, que
pediu para não ser identificado. Além de economizar na tarifa que hoje
paga aos grandes bancos, o diretor não descarta a possibilidade de prestar
serviços de emissão de boletos a terceiros.
A novidade também deve beneficiar as novas empresas de tecnologia
financeira (fintechs). A Pinbank, que oferece conta digital e serviços de
pagamentos para pessoas jurídicas, já emite 80% dos boletos dentro de
casa. Antes do sistema que permite o pagamento de títulos vencidos em
qualquer instituição, todos os boletos da fintech eram emitidos por grandes
bancos.
A fintech emite hoje 50 mil boletos por mês. "É um número ainda pequeno,
mas que esperamos alavancar com o boleto eletrônico", diz Ricardo
Barletti, diretor da Pinbank.
Outra novidade deve favorecer as instituições menores interessadas em
atuar no ramo: o chamado "open banking", segundo Almir Carrion, diretor
de marketing e produtos da C&M Software, que presta serviços para
bancos. Com a tecnologia que permite a terceiros acessar recursos de
contas, desde que com autorização, os boletos podem ser gerados
diretamente pelo cliente da instituição financeira.
Mesmo perdendo uma parte da receita, os grandes bancos manterão a
remuneração pelo serviço de recebimento dos boletos. Para cada título de
outra instituição pago em sua rede de agências ou pelos canais digitais, os
bancos cobram até R$ 1,08, segundo um profissional.
A emissão de boletos ajuda a engordar as receitas com prestação de
serviços, que ganharam importância no resultado dos bancos com o
desempenho fraco do crédito nos últimos anos. No primeiro trimestre,
Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica registraram um
ganho de R$ 33,4 bilhões com a cobrança de tarifas, alta de 7,1% em relação
ao mesmo período do ano passado.