06/07/2018

Aumenta interesse de empresas por empréstimos em dólar

Por Silvia Rosa | De São Paulo

Fonte: Valor Econômico

Enquanto o mercado de emissões de títulos de dívida no exterior
desacelerou em junho - em função da maior aversão a risco que afeta ativos
emergentes -, a demanda de empresas brasileiras por empréstimos em
dólar voltou a crescer ao oferecerem custos mais atrativos que os das linhas
de crédito domésticas, segundo relatos de bancos.
Nessa operação, realizada na modalidade conhecida como "4131", em
referência à lei que disciplina a aplicação de capital estrangeiro e remessa
de valores para o exterior, o banco empresta recursos em dólar para a
empresa e faz uma operação de troca ("swap") do custo da dívida em
moeda estrangeira por Certificado de Depósito interfinanceiro (CDI). Assim,
no fim da transação, é como se a empresa tivesse contratado uma dívida
em reais.
"O número de cotações para essas operações recebidas pelo banco em
junho foi mais que o dobro do registrado normalmente", diz Anderson
Godoi, chefe da tesouraria do Banco MUFG Brasil. No MUFG, o volume de
operações 4131 fechadas somente em junho foi maior que o total
verificado entre janeiro e maio 2018.
Nesses empréstimos, as empresas tomam recursos a um custo equivalente
à taxa Libor mais um spread, que varia de acordo com o risco da companhia.
Para se protegerem da oscilação da moeda estrangeira, aplicam na taxa do
cupom cambial, que representa o juro em dólar no Brasil.
Com a alta da taxa do cupom cambial em junho, o custo do hedge ficou mais
barato porque abriu a distância em relação à Libor. Essa diferença, que era
de 0,80 ponto percentual no início do ano, chegou a 1,50 ponto em junho,
o que fez com que os empréstimos em dólar passassem a ficar mais
atrativos que as linhas domésticas. "Em geral, quando a taxa do cupom
cambial sobe vemos um aumento da demanda por esse tipo de operação",
diz Luis Kondic, superintendente de vendas corporativas da tesouraria do
Citi Brasil. Segundo Godoi, do MUFG, toda vez que há aumento dessa
arbitragem de taxas, as empresas aproveitam para antecipar a tomada de
recursos.
Esses empréstimos funcionam como uma linha de capital de giro em dólar,
cujo prazo gira, em geral, em torno de um a dois anos. Eles são contratadas
principalmente por empresas brasileiras que não têm receitas em dólar ou
subsidiárias de multinacionais. Por isso, o custo do hedge tem grande
influência na demanda por esse produto.
Esses empréstimos funcionam como uma linha de capital de giro em dólar,
cujo prazo em geral fica entre um a dois anos, e são contratadas
principalmente por empresas brasileiras que não tem receitas em dólar ou
subsidiária de multinacionais. Por isso, o custo do hedge tem grande
influência na demanda por esse produto.
A transmissora de energia ISA Cteep, por exemplo, aprovou a captação de
US$ 150 milhões nessa linha pelo prazo de até dois anos, cujo custo já seria
convertido para reais por meio de uma operação de swap. A ideia da
empresa é rolar um empréstimo também na modalidade 4131 tomado no
ano passado, no valor de US$ 50 milhões, que vence agora em meados de
julho e tinha um custo de 101,4% do CDI.
Segundo o gerente financeiro da companhia, Thiago Lopes, hoje essa
operação está mais barata que a emissão de uma debênture no mercado
local ou de um bônus no exterior, mas o fechamento da operação, contudo,
vai depender das condições de mercado. "A opção de uma emissão de
bônus fazia sentido no início do ano, mas agora não mais por conta do
aumento dos juros no mercado americano e do custo de emissão para
países emergentes", diz.
No MUFG, por exemplo, a maior demanda foi registrada nas operações que
são captadas em dólar, mas já têm o custo fixado em reais, com o próprio
banco assumindo o risco da variação cambial. "Esse tipo de operação é
demandada por subsidiárias de multinacionais que não podem fechar
operações de hedge no Brasil ou por companhias que não querem correr o
risco de variação cambial", diz Godoi.
Desde o início de junho, o BNP Paribas registrou um total de US$ 500
milhões entre empréstimos fechados e em andamento. "Cerca de 80% das
operações do banco foram com multinacionais", diz Sérgio Machado, chefe
de vendas da mesa de renda fixa para clientes corporativos no Brasil do BNP
Paribas.
Em geral, os bancos estrangeiros conseguem ser mais competitivos nesses
empréstimos porque captam a um custo mais barato fora. A vantagem
desse financiamento é que, diferentemente das linhas domésticas, ele é
isento da cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para
prazos acima de seis meses.
Embora a taxa do cupom cambial já tenha recuado desde o pico registrado
no fim de junho, o custo desse empréstimo ainda está atrativo quando
comparado a uma linha de capital de giro no mercado local. "Para
operações acima de seis meses, dependendo da empresa, pode sair com
um custo próximo a 100% do CDI", diz Machado, do BNP.
A chefe da área de multinacionais do ING, Marina Kieran, afirma que essas
linhas devem continuar atrativas por enquanto. "A taxa do cupom cambial
recuou um pouco, mas ainda está em níveis atrativos quando comparado
com o início do ano."
Em junho a taxa do cupom cambial subiu em função da piora do risco de
crédito do Brasil, que acompanhou o movimento de outros países diante da
possibilidade de um aperto maior de juros nos Estados Unidos. Somente em
junho, o Credit Default Swap (CDS) do Brasil de cinco anos subiu 48 pontos
e hoje é negociado próximo de 264 pontos. Nesse cenário, a taxa de juros
em dólar no Brasil tem que ser mais alta para atrair o investidor estrangeiro
para aplicar no país.
Outro fator que contribuiu para a alta da taxa do cupom cambial foi a
atuação do Banco Central no câmbio. O BC ampliou as vendas de swap
cambial, tendo colocado US$ 36,4 bilhões no mercado no mês passado.
Nessas operações, o BC se compromete a pagar aos investidores a taxa do
cupom cambial mais a variação do câmbio. O aumento da colocação desses
contratos, que têm o mesmo efeito de uma venda de dólar no mercado
futuro, ajudou a puxar a taxa do cupom cambial para cima - e para aliviar a
pressão, a autoridade monetária ofertou linhas de dólar e melhorou a
liquidez no mercado de câmbio.
Apesar da maior demanda por empréstimos em dólar em junho, a dívida
total em moeda estrangeira das empresas brasileiras não tem aumentado.
E isso se deve tanto ao processo de desalavancagem financeira das
empresas desde a crise econômica, com a recompra de dívidas caras e
redução do nível de endividamento, quanto ao cenário de maior aversão a
risco no exterior, que levou a um aumento do dólar no mundo, com impacto
direto sobre os custos das emissões de dívida lá fora.
Dados do BC mostram que a dívida externa das empresas, excluindo
empréstimos dentro do mesmo grupo, caiu de US$ 106,4 bilhões em junho
de 2017 para US$ 105,5 bilhões no mês passado.